UM BELÍSSIMO TEXTO PELA MÃO DO NOSSO PÁROCO, PADRE MANUEL CORREIA FERNANDES, ESCRITO POUCOS DIAS APÓS O FALECIMENTO DO NOSSO MUITO QUERIDO D. MANUEL DA SILVA MARTINS, EM 24 DE SETEMBRO DE 2017:
"Bispo da coragem e simplicidade
Apesar da idade, partiu antes do tempo. Terminada a sua árdua e exemplar missão na diocese de Setúbal, da qual foi o primeiro Bispo, reconhecida como social e pastoralmente profética, desenvolvida ao longo de 23 anos, de 1975 a 1998, regressou à sua diocese de origem e de afeição, e por aqui se empenhou na pastoral como um bispo de serviço. Quando o convidavam para qualquer ação pastoral, estava sempre disponível. Presidia a celebrações solenes e a festas populares, que eram de seu especial agrado, porque expressão simples da fé do povo de Deus. Recordava os amigos e companheiros falecidos com uma visível saudade, como acontecia com o seu condiscípulo Padre Inácio Gomes, presidindo durante onze anos à celebração do aniversário da sua morte, falando dele como quem estava ali ao lado,
reconhecendo perante toda a comunidade o seu trabalho pastoral e elogiando quem recordava a sua memória.
Em Santa Cruz do Bispo presidia à popular festa de S. Brás e escrevia uma crónica habitual no boletim paroquial “Crescendo”, onde vertia inquietações pastorais e apelos solidários. Num dos últimos números, em junho deste ano, escrevia: “A nossa Igreja tem testemunhado esse
amor [de Deus] em tantos passos da sua vida. Falar da pastoral social tão consciente e ativa; falar do trabalho feliz e bem conseguido das nossas catequeses; falar de tantos movimentos de apostolado… tudo isto não será motivo para cantarmos o amor de Deus e testemunhá-lo na vida?”.
Era esta atenção às dimensões da Igreja, em tantas conferências e colóquios em que participava, aos amigos que visitava e que o visitavam, aos dramas vividos por muitos. As suas intervenções na rádio e na televisão eram incisivas e destemidas. O reconhecimento e a gratidão que manifestava nos últimos anos da vida, mais débil mas sempre atenta e ativa, completavam a grande e reconhecida intervenção espiritual e social que levou a cabo na diocese de Setúbal, e que prolongava agora pelas comunidades do país, desde a sua terra de residência, onde colaborava com o pároco, até à distante ilha do Corvo ou a terras do interior, sempre acedendo a convites e exercendo a sua missão episcopal.
Por isso são compreensíveis as palavras de reconhecimento que tantas personalidades e entidades públicas lhe vêm tributando, evidenciando o Bispo como arauto da Palavra, da
doutrina social da Igreja, no sentido da compaixão. Era pessoa diferente de D. António Francisco, mas sentido agora como muito próximo dele nos grandes ideais, apesar dos mais de vinte anos de diferença de idade.
A grandeza de alma, o espírito evangélico, a atenção à pessoa humana na sua integridade e dignidade, são coisas em que mais se evidencia a grandeza destes homens marcados pelo carisma do episcopado. É bom que a sociedade humana, tantas vezes distraída do essencial,
saiba reconhecer a presença das pessoas que abraçaram os grandes ideais e que consumiram as suas vidas para os transmitir.
M.C.F"